O folhado de Loulé: Uma realidade que se saboreia desde meados do século passado
Duas mulheres foram fundamentais para a história dofolhado de Loulé: Lídia da Costa Guerreiro Lopes e Maria Pires. Maria, que foitrabalhar para casa de Lídia Lopes, terá herdado da mãe o prazer da cozinha eterá aprendido a arte de fazer folhados algures na Figueira da Foz, próximo deCoimbra (muito provavelmente, os pastéis de Tentúgal, datados de finais doséculo XIX), onde acompanhava os seus patrões quando estes passavam temporadasde férias no local.
Foi na grande bancada forrada de chapa de latão dacozinha da casa de Lídia Guerreiro Lopes que, na década de 20 do séculopassado, Maria experimentou o que se tornou a sua especialidade. Estendeu amassa, dobrou-a e recheou-a. Devagar se foi criando a mística à volta dos seusfolhados, de sabor único, trabalhados com a calma e a austeridade do rigorlaboratorial da boa doçaria.
Quando a tristeza se instalou na casa de Bernardo Lopespor vicissitudes irónicas da vida, a família decidiu abdicar do trabalho deMaria. Mas a cozinheira não desistiu. E com a ajuda das irmãs continuou apreparar os seus folhados em casa, e a cozê-los no forno da “Zefita”, ondeentravam pelas traseiras da Avenida José da Costa Mealha. Ali trabalhavam aolongo da madrugada para que, de manhã, fossem vendidos pelas irmãs,ainda quentes, e com um odor aconchegante a cozinha familiar, nos principaiscafés da vila de Loulé: o Calcinha, o Barreiros, o Avis, o Avenida, a Vitória,o Faz-Tudo e a Franca.
As irmãs, muitas vezes coadjuvadas pelos filhos,desciam a Avenida, carregando tabuleiros tapados com panos alvos. E toda agente sabia quando passavam. À tarde, voltava-se à mesma labuta, ao mesmocircuito. E a hora do chá, acompanhada com um folhado, fazia parte doquotidiano do contexto urbano da vila, numa dinâmica comercial, económica efinanceira que ficou na memória de muitos louletanos.
Após o falecimento de Maria, Maria José, sobrinha deMaria, com mais duas irmãs, Nídia e Ana, continuaram a arte de Maria. Noentanto, Maria José surgiu como a mais dotada no fabrico artesanal dosfolhados, com creme de ovo, tal como se define o verdadeiro folhado de Loulé.Sua filha, Maria Ivone Pires da Piedade, continuou a arte. Atualmente é a únicapessoa que confeciona o folhado de modo tradicional e manual, tal como desde hácerca de um século, alimentando ainda a esperança de poder ensinar e partilharos segredos com pessoas que demonstrem vontade de dar continuidade a umaaventura que começou mesmo no coração de Loulé.
Nota: Texto da autoria da colega Luísa Martins publicado na Revista Raízes nº 5. Ler a revista na integra aqui.



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