As nossas leituras - A importância da obra “Febres Infecciosas: Notas sobre o concelho de Loulé” de Geraldino de Brites, 110 anos após a sua publicação.

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Natural do Porto, Geraldino Brites (1882-1941) formou-se em medicina em 1907, tendo exercido clínica em Loulé de 1908 a 1910. De entre os diversos estudos científicos da sua autoria, destaca-se a obra “Febres Infecciosas: Notas sobre o concelho de Loulé”, publicada em 1914 pela Universidade de Coimbra.


 


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📷Folha de rosto do livro "Febres infecciosas: Notas sobre o Concelho de Loulé"

© Museu Municipal de Loulé, Centro de Documentação

 

Apelidada pelo autor como “um modesto trabalho dum clínico da aldeia”, “Febres Infecciosas” é uma obra detalhada que espelha o quotidiano dos louletanos do princípio do século XX.


Na introdução, Geraldino Brites define os objetivos deste trabalho: “Fazer conhecer o concelho de Loulé, onde gastei muitos dias da minha vida e muita energia, e chamar a atenção dos mais competentes para esse conjunto de sintomas que tanto preocupou os meus antecessores e me interessou desde que iniciei a minha clínica em terras algarvias.” No entanto, o que torna este estudo singular e não meramente técnico é expresso nas seguintes palavras: “Não houve, porêm, nenhum propósito formal de especialmente me referir à psicologia do povo louletano. Estudando o meio em que se desenvolve uma epidemia, não podem ser postos de parte o caracter dos seus habitantes, a sua educação, hábitos, preconceitos e vícios. […] Teria, portanto, de estudá-los como observador consciencioso.”


Neste sentido, o quinto capítulo da obra, que o autor intitulou “Alguns caracteres do povo louletano”, é rico em detalhes que são o reflexo da realidade sócio-económica, política e cultural da sociedade louletana nos alvores do século XX. Minuciosamente, Geraldino Brites descreve esta sociedade como essencialmente rural, subsistindo da agricultura e dos frutos secos (alfarroba, amêndoa e figo), com uma elevada taxa de analfabetismo e uma alimentação deficitária assente no xerém (farinha de milho) ou no gaspacho, consoante a altura do ano, na batata, sobretudo na sua variante doce, nalgumas leguminosas frescas e no pão. O autor refere ainda aspetos do ambiente urbano, evidenciando a importância dos sapateiros e dos oleiros dentro da classe operária, as parcas condições económicas desta classe que condicionavam o seu vestuário e os cuidados de higiene, potenciando por sua vez a prostituição e o alcoolismo. Neste capítulo, são ainda abordadas questões como a espiritualidade e a religião, a política, os costumes e superstições. Muitas vezes crítico, mas procurando ser imparcial, Geraldino Brites, entende como “[…] uma indeclinável obrigação dizer toda a verdade, apontando os defeitos e deixando aos mais autorizados a indicação da orientação a seguir para a sua eliminação.”


Rigoroso e pormenorizado, este estudo não é apenas um tratado médico, mas sim uma monografia de Loulé, não só enquanto vila, mas também como concelho.

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