Conselhos para ir a banhos... em 1889

 



   Algarve Pitoresco, ano 1, n.º 1, 1935


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Quando hoje pensamos na praia, imaginamos toalhas estendidas ao sol, protetor solar, chapéus, hidratação e avisos sobre os índices UV. No final do século XIX, porém, a preocupação era outra. Ir a banhos era, antes de tudo, uma prática terapêutica, recomendada pelos médicos e encarada como um verdadeiro tratamento de saúde.

Nas páginas do jornal O Algarvio, de 29 de setembro de 1889, encontramos um curioso artigo intitulado "Conselhos aos banhistas", um testemunho revelador da forma como a medicina e a sociedade olhavam para os banhos de mar numa época em que o turismo balnear ainda engatinhava no Algarve.

As recomendações surpreendem o leitor contemporâneo. Entrar na água logo após uma caminhada intensa era desaconselhado, mas também não se devia fazê-lo com o corpo demasiado frio. A solução passava por um pequeno passeio junto ao mar, suficiente para aquecer moderadamente o organismo antes da imersão.

Outra regra importante dizia respeito às refeições. O banho só deveria ser tomado quatro ou cinco horas depois de comer, sendo mesmo considerado ideal entrar na água pela manhã, ainda em jejum, para evitar problemas digestivos que, segundo os conhecimentos da época, poderiam ter consequências graves.

Também a entrada no mar obedecia a um verdadeiro ritual. Nada de molhar primeiro os pés ou entrar lentamente. A imersão deveria fazer-se de uma só vez, enfrentando as ondas com decisão e mantendo sempre o corpo em movimento. Permanecer imóvel era visto como prejudicial.

Curiosamente, o tempo de permanência na água era rigorosamente controlado. Os adultos deveriam permanecer entre dez e quinze minutos; idosos, pessoas anémicas e crianças tinham tempos ainda mais reduzidos, sendo recomendado apenas cinco minutos para os mais pequenos.

Um dos aspetos mais curiosos do artigo é a referência ao chamado "segundo arrepio", interpretado como um sinal natural do organismo de que chegara o momento de sair da água. Depois do banho não se aconselhava ficar parado a contemplar o mar, mas sim caminhar para favorecer aquilo que os médicos designavam por "reação" do corpo.

Os autores defendiam ainda que uma temporada balnear deveria durar entre vinte e cinco e trinta dias e recomendavam que o primeiro banho apenas fosse tomado dois ou três dias após a chegada à praia, permitindo uma adaptação gradual ao ambiente marítimo.

Mesmo aqueles que tinham receio do mar não ficavam esquecidos. O simples passeio junto à costa era considerado benéfico. Acreditava-se que o ar marítimo, enriquecido pelas partículas salinas transportadas pela brisa, exercia uma ação particularmente favorável sobre os pulmões e sobre as pessoas de constituição mais frágil. Para sustentar estas afirmações, o artigo invocava médicos como Garnier e Bayle, refletindo a confiança oitocentista nas virtudes terapêuticas do clima marítimo.

Lido à distância de quase cento e quarenta anos, este texto vale muito mais do que um conjunto de recomendações médicas hoje ultrapassadas. Constitui um retrato da mentalidade da época, mostrando como o mar era entendido não apenas como espaço de lazer, mas sobretudo como um recurso natural ao serviço da saúde.

Alguns conselhos permanecem surpreendentemente atuais, como evitar entrar na água logo após refeições abundantes ou reconhecer a importância do exercício físico moderado. Outros fazem-nos sorrir, revelando o quanto a medicina evoluiu desde então.

Ainda assim, permanece inalterada uma certeza que atravessa gerações: o fascínio que o mar exerce sobre quem o procura. Ontem como hoje, as praias algarvias continuam a ser um lugar de descanso, bem-estar e renovação.


Fonte: 

1. O Algarvio, n.º 67, 29 de setembro de 1889

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