O cemitério de Loulé: um museu a céu aberto
Bom dia caros visitantes do "A Marafada Louletana".
Celebra-se hoje o Dia dos Finados ou Fiéis Defuntos. Ontem foi feriado nacional, Dia de Todos os Santos Mártires, efeméride em que, por tradição, se visitam os cemitérios e se ornamenta a última morada dos ente queridos que já partiram. No entanto, para além de serem lugares ligados naturalmente à religiosidade e ao sagrado, os cemitérios são também locais onde, através da arquitetura fúnebre e de outros elementos, nos é permitido conhecer melhor a história da comunidade em que se inserem. Verdadeiros museus a céu aberto, nos últimos anos existem mesmo visitas guiadas a determinados cemitérios e um número crescente de interessados nestes passeios.
Construído nas primeiras décadas do século passado, o Cemitério de Loulé é um desses locais cuja visita nos elucida sobre a nossa história, revelando os seus protagonistas, o seu estatuto económico-social e até a sua atitude perante a morte.

Em 1910, a Implantação da República em Portugal representou uma profunda viragem, não só em termos políticos e socioeconómicos, mas também no que diz respeito às mentalidades. Uma das prioridades do novo regime político passava por combater o monopólio da Igreja Católica sobre o Estado e sobre a sociedade, aspiração que culminaria na Lei da Separação do Estado das Igrejas. Por outro lado, o século XIX, sobretudo a partir de 1850, foi palco de diversos surtos epidémicos, especialmente de colera morbus, o que aumentou drasticamente a mortalidade e inviabilizou que se continuassem a efetuar enterramentos no interior das Igrejas. Assim, apesar de toda a polémica e revolta que daí resultaram, em 1835, foi legislado que os enterramentos passariam a ser feitos no adro das igrejas. Este contexto revelar-se-á também favorável às elites liberais adeptas do republicanismo, que alegando questões de saúde pública, empolavam a necessidade de afastar os cemitérios da urbe e, consequentemente, do domínio da igreja.

A conjugação destes fatores irá materializar-se na criação de cemitérios civis que, apesar da relutância dos mais conservadores, acabariam por proliferar durante a Primeira República. Loulé, como muitas vilas do país que se viam a braços com o elevado número de mortos e a sobrelotação dos locais de enterramento tradicionais, sentiu a necessidade de criar uma nova necrópole, afastada do centro da vila o suficiente para evitar a propagação de doenças, mas ainda assim a curta distância do centro urbano e equidistante das sedes paroquiais das duas freguesias, São Clemente e São Sebastião.
Assim, para além de uma resposta óbvia aos surtos epidémicos e à elevada mortandade que caracterizaram os finais do século XIX e inícios do século XX, os cemitérios civis são fruto de uma nova abordagem, sobretudo por parte das classes intelectualizadas, perante a morte e a preservação da memória. Desta forma, a burguesia mercantil e industrial, classe social em franca ascensão e em grande parte adepta dos ideais maçónicos e republicanos, procura que os novos cemitérios, não só se tornem acessíveis a todos, como espelhem a estrutura social e arquitetónica da época. Neste sentido, após a implantação da República assiste-se à secularização dos cemitérios, cuja administração passa a estar sob a alçada das autarquias, evitando assim que, tal como se passara até aí, fosse a Igreja a decidir quem podia ou não ser enterrado em “solo sagrado”. No Regulamento do Cemitério de Loulé, discutido e aprovado na Sessão de 16 de abril de 1917, o Capítulo IV, artigo 10.º determina que “A nenhum cadáver, seja qual for o motivo, se poderá negar sepultura dentro do recinto do Cemitério”, acrescentando no artigo seguinte que os pobres teriam direito a sepultura gratuita.
Não obstante, apesar dos ideais de igualdade e fraternidade propagandeados pelos republicanos, os cemitérios civis, construídos à semelhança das vilas e cidades em que se inseriam, irão traduzir as diferenciações socioeconómicas da época. Desta feita, o Cemitério de Loulé, tal como muitos dos seus congéneres, é reflexo da hierarquia social existente à data da sua construção, cujos primeiros procedimentos remontam a 1914/15. Assim, ao longo da rua principal, donde partem ruas perpendiculares, alinham-se os jazigos da elite louletana, de entre os quais se destacam, logo à entrada, os pertencentes a José Martins Farrajota e Ângelo José de Castro, ambos abastados comerciantes e fervorosos republicanos, como se pode depreender pelas decorações de cariz maçónico e laico que ornamentam os seus jazigos.

A riqueza arquitetónica, de inspiração romântica e revivalista, é uma constante nos cemitérios civis dos princípios do século passado e constitui uma das formas que a burguesia endinheirada privilegiou para ostentar a sua condição económica e perpetuar na memória coletiva o seu nome e os seus feitos. O Cemitério de Loulé não foi exceção. Durante a primeira fase de construção do mesmo, que se desenrolou na década de 1920, embora o primeiro enterramento neste local date de 1918, a arte tumular, quer a arquitetura imponente dos jazigos, quer a estatuária, materializa uma nova postura perante a morte, encetando a dimensão cívica do culto dos mortos, onde se exaltavam os heróis e as virtudes e não os santos. O jazigo de Joaquim Marcelo Adelino é um dos que melhor ilustra este cenário, pois não só ostenta símbolos maçónicos, nomeadamente as colunas na fachada, como é ladeado por duas esculturas, com as inscrições “Eternidade” e “Verdade”, que remetem para o enaltecimento de princípios e ideais, sem conotação religiosa. Ainda assim, não deixamos de encontrar também, neste e noutros jazigos limítrofes, a cruz, reflexo de um compromisso entre a igreja e o espaço laico que acabou por prevalecer.
Em suma, é o desejo do Homem em perdurar na memória do Outro, marcante na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, que faz dos cemitérios civis “museus ao ar livre”, onde relembrando os nossos antepassados, relembramos também a nossa história e reencontramo-nos enquanto comunidade. Ao visitar o Cemitério de Loulé, no descanso eterno de José da Costa Ascensão, Manuel dos Santos Galo, José da Costa Mealha, António Aleixo, entre tantos outros, (re)descobrimos os alicerces da Loulé em que hoje vivemos.

Nota:
Texto da minha autoria publicado na revista "Raízes" n.º6, em 2018. Aceda a revista aqui.


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