Quando os sinos se calaram em Loulé



Bom dia caros visitantes do "A Marafada Louletana".


Há sons que fazem parte da identidade de uma terra.

Durante séculos, o toque dos sinos marcou as horas, chamou os fiéis à igreja, anunciou as festas e acompanhou o último adeus de quem partia.
Mas, no outono de 1918, houve um momento em Loulé em que foi preciso mandar calar os sinos.

A razão era terrível. 
Havia mortos a mais!




Nesse ano, a pneumónica, também conhecida como gripe espanhola, chegou ao Algarve com uma violência devastadora. Loulé e São Brás de Alportel foram dos primeiros concelhos algarvios a sentir o impacto da epidemia e, em poucas semanas, a doença espalhou-se por praticamente todo o território.

A doença espalhava-se rapidamente e as populações viviam assustadas.

Faltava assistência médica e, do interior do concelho de Loulé, chegavam notícias de populações em desespero. A Câmara de Loulé chegou a reclamar a presença de mais um médico para acudir à situação.




O desespero fazia-se sentir um pouco por todo o concelho:
Em Quarteira, por exemplo, o regedor substituto José Oliveira pediu à Câmara que disponibilizasse carros para transportar os cadáveres até ao cemitério. Um pedido que, só por si, revela a dimensão da tragédia que então se vivia.

E o pior ainda estava para chegar.
Segundo os registos da época, houve dias em que o concelho de Loulé terá perdido cerca de setenta pessoas. Para uma população muito inferior à atual, era uma sucessão de mortes difícil de imaginar.

Foi neste contexto que surgiu uma decisão insólita:
A Câmara determinou aos regedores que não fossem tocados os sinos durante os cortejos fúnebres.
Pode parecer estranho, mas basta imaginar uma vila onde, a cada hora, os sinos voltavam a anunciar mais uma morte. O seu som, que durante séculos fizera parte do quotidiano, transformara-se num lembrete constante da epidemia e alimentava o medo de uma população já profundamente abalada.
O silêncio dos sinos não significava que houvesse menos funerais.
Muito pelo contrário.
Era uma tentativa de devolver algum sossego a uma comunidade onde a morte parecia não dar tréguas.



                                            




Mais de um século passou desde esses dias sombrios.

Hoje, quando ouvimos os sinos das igrejas de Loulé, dificilmente imaginamos que houve um tempo em que o seu silêncio foi considerado um gesto de humanidade.
Porque, em 1918, o silêncio não significava paz. Significava apenas que a dor já era demasiado grande para continuar a anunciá-la.


Fontes:

1. "Há 102 anos, a pneumónica matou 55 mil pessoas. No Algarve houve dias com 300 mortos", Público, 27 de novembro de 2020;

2. GIRÃO, Paulo, A Pneumónica no Algarve. Casal de Cambra, Caleidóscopio, 2003;

3. O Algarve, 06/10/1918, ano 11.º, n.º 550, p.1; 27/10/1918, ano 11.º, n.º 553, p.1 ;

4. Folha do Domingo, 01/12/1918, ano V, n.º 22, p.2;

5. O Primeiro de Maio, 07/11/1918, ano VI (2.ª FASE), n.º 282, p.1; 14/11/1918, ano VI (2.ª FASE), n.º 283, p. 1-2.



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