As canículas: boletim meteorológico de outros tempos


                                             Jornal "O Povo Algarvio", 22/07/1911


Bom dia caros visitantes do “A Marafada Louletana”.

Ainda no mês de agosto, relembramos uma das tradições populares intimamente relacionada com este mês.

Já ouviu falar das canículas?

Hoje consultamos aplicações meteorológicas, acompanhamos imagens de satélite e recebemos previsões para os dias seguintes diretamente no telemóvel. Mas, durante séculos, quando nada disso existia, as populações rurais procuravam na natureza os sinais que lhes permitissem antecipar o tempo.
Dessa experiência acumulada, transmitida de geração em geração, nasceu um vasto conjunto de crenças, provérbios e práticas relacionadas com a previsão do tempo. Entre elas encontra-se as canículas.
Segundo esta tradição, determinados dias do mês de agosto funcionariam como uma espécie de calendário meteorológico do ano seguinte. O tempo observado em cada um desses dias (sol, chuva, vento, calor ou frio) seria uma antecipação das condições atmosféricas que se fariam sentir nos meses seguintes.

No Algarve, uma das versões mais conhecidas desta tradição estabelece a seguinte correspondência:
  • 1 de agosto → agosto
  • 2 de agosto → janeiro
  • 3 de agosto → fevereiro
  • 4 de agosto → março
  • 5 de agosto → abril
  • 6 de agosto → maio
  • 7 de agosto → junho
  • 8 de agosto → julho
  • 9 de agosto → agosto
  • 10 de agosto → setembro
  • 11 de agosto → outubro
  • 12 de agosto → novembro
  • 13 de agosto → dezembro

Assim, de acordo com esta tradição, o estado do tempo no dia 6 de agosto permitiria antecipar como seria o mês de maio do ano seguinte. Se o dia fosse chuvoso, maio seria chuvoso; se fosse seco e muito quente, o mesmo se esperaria desse mês.

Mas a observação não terminava aí.

Em algumas tradições, a partir de 14 ou 15 de agosto iniciava-se uma segunda volta de observação, que se prolongava até cerca de 26 de agosto. Esta nova contagem funcionaria como uma espécie de confirmação ou, por vezes, de correção, das previsões feitas durante os primeiros treze dias.

As canículas não constituem um método cientificamente validado de previsão meteorológica, no entanto, seria um erro olhar para estas crenças apenas como “superstições” ou simples curiosidades do passado. As canículas fazem parte de uma forma tradicional de observar e interpretar a natureza. Numa sociedade em que a agricultura condicionava profundamente o quotidiano e a sobrevivência das famílias dependia, em grande medida, da chuva, do sol e das estações do ano, conhecer o tempo, ou tentar antecipá-lo, era uma necessidade. Saber quando poderia chover, prever períodos de seca ou imaginar como poderia decorrer uma determinada época agrícola tinha consequências práticas. A meteorologia popular nasceu, assim, da observação continuada, da experiência e da necessidade de encontrar padrões no comportamento da natureza.

Por outro lado, a palavra canícula nem sempre foi utilizada apenas para designar esta curiosa forma de previsão popular. Durante muito tempo, era também uma palavra corrente para referir os dias mais quentes do verão, sobretudo aqueles períodos de calor intenso que tradicionalmente se associavam aos meses de julho e agosto. Basta consultar a imprensa de outras épocas para encontrar, com frequência, referências às "canículas", aos "calores caniculares" ou aos incómodos provocados pelos "dias de canícula". Expressões como "em plena canícula", "os ardores da canícula" ou "os grandes calores caniculares" eram utilizadas para descrever os dias em que o verão parecia atingir o seu ponto máximo. A palavra surgia em notícias, crónicas, textos literários e até em conselhos de saúde, revelando um vocabulário hoje menos frequente no quotidiano, mas então perfeitamente reconhecível pelos leitores.

Esta associação não era, aliás, casual. A palavra canícula tem origem no latim canicula, diminutivo de canis, "cão", e encontra-se ligada à estrela Sírio, da constelação do Cão Maior. Na tradição antiga, o seu aparecimento no céu, coincidindo aproximadamente com a época mais quente do ano no hemisfério norte, contribuiu para a associação entre a canicula e os períodos de calor intenso.
Com o tempo, a palavra passou a designar, de forma mais geral, os dias ou períodos de maior calor do verão.

Mas voltando às canículas como boletim meteorológico, ainda hoje, sobretudo entre as gerações mais velhas, há quem acompanhe os dias de agosto com curiosidade e diga: “Vamos lá ver como estão as canículas!”. Mesmo quem não acredita verdadeiramente na capacidade desta tradição para prever o futuro do tempo acaba por reconhecer-lhe um certo encanto.

Este agosto, porque não experimentar?

Observe o tempo de cada dia, faça as suas anotações e guarde as previsões das canículas. Depois, ao longo do próximo ano, poderá voltar a elas e descobrir se, por acaso, a antiga sabedoria popular acertou.

 

Notas: 

1. Ventura, José Eduardo; Umbelino, Jorge; Silva, Álvaro — “Canículas e Caniculares: análise de uma crença popular de previsão do tempo”;
2. Registos de tradição oral local, como o blogue Nave do Barão, que documenta a prática na aldeia da Nave do Barão e noutras zonas do Algarve e do Alentejo;
3. Texto de Sónia Silva publicado aqui;
4. Jornal "O Povo Algarvio", 22/07/1911.

 

Comentários

Mensagens populares